∞ Eu me lembro de vários alunos que tive. Os mais estudiosos, os mais brincalhões... Porém, da aluna que mais me lembro, foi de uma jovem chamada Lisel.
"Eu era uma professora do Jardim de Infância. Em um dos primeiros anos de minha carreira, eu dei aula para uma garota chamada Lisel. Me lembro claramente que nesse colégio, as crianças podiam levar um animalzinho de estimação, desde que este fosse pequeno. Lisel, sempre levava uma calopsita branca que tinha. Pelo o que lembro-me, o nome da ave era Sam. Sempre em uma gaiola. Nunca ao ar livre, como as outras crianças que possuíam pássaros deixavam.
Um dia, em uma reunião de pais e professores, descobri que Lisel sempre estava com o animal. Quando ia jantar, a gaiolinha ficava em uma cadeira ao seu lado; quando ia para o banho, o pássaro aguardava em cima da pia ou da privada, seus pais terminarem. Soube também que tanto o animal como a menina eram muito ligados; um sempre queria estar com o outro. Por causa dessas informações, resolvi falar com Lisel.
- Lisel, por que não deixamos Sam voar?
- Ele não vai sair da gaiolinha dele! - ela berrou e abraçou a gaiola fortemente.
Por causa disso, chamei novamente os pais da garota para conversar. Ele falaram-me que a menina nunca ia deixar o pássaro voar livremente.
Certo dia, - no segundo ano que dava aulas para a turma- tivemos passeio para o parque. Todas as crianças levariam seus bichinhos. Enquanto todas brincavam, Lisel estava em um canto. Observei-a. Vi sua mão ir até a portinhola da gaiola, e abrir-lá. Logo, a menina estava com o pássaro na mão. Aproximei-me dela.
- Lisel, pensei que você nunca fosse deixar o Sam voar.
- Ele não estava pronto, professora. Hoje, ele está pronto para voar e ser livre. Eu o amo e por isso, tenho que lhe dar a liberdade. Eu gostaria de ter o Sam para sempre mas, ele precisa ser livre.
A menina soltou o animal e eu o observei voar para longe.
Até o final desse ano, não ouvi Lisel se lamentar desse acontecimento. Após esse ano, parei de dar aulas à Lisel. ~
Depois de muitos anos, eu ainda me lembrava dela. Passeando pelo mesmo parque, eu pensava nessas coisas quando me surpreendi com um chamado.
- Professora? Professora Amanda?
Reconheci a menina na mesma hora. Lisel já estava mudada; devia ter uns 15 anos.
- Lisel? Olá querida! Há quanto tempo.
- Não sabia que você ainda andava por aqui...
- Às vezes ainda ando por aqui. E você o que faz?
- Estou vindo do meu colégio.
Enquanto conversávamos, um leve bater de asas se aproximou. Olhamos juntas e, para nossa grande surpresa, vimos Sam. A menina berrou seu nome e o pegou carinhosamente.
- Mas como... - fiquei sem palavras para aquilo.
- Desde pequena, eu sabia uma coisa: devemos deixar livre aquilo que amamos. Se libertamos e essa coisa ou pessoa não retornar, é porque a coisa ou pessoa nunca foi nossa."
Depois de todos esses anos, ninguém nunca me ensinou uma coisa tão bela, como essa garota.∞